Poucas pessoas conseguem falar sobre longevidade com a autoridade de quem vive, há décadas, em permanente movimento. Aos 76 anos, a triatleta Carmencita Hokumura continua acordando antes do amanhecer para nadar, pedalar e correr, mantendo uma rotina que começou ainda na infância e que atravessou cidades, profissões e gerações.
Convidada do podcast Giro Saúde, apresentado por Sérgio Urel, o Cachorrão, Carmencita compartilhou histórias que ajudam a explicar por que se tornou uma referência do esporte mato-grossense e um símbolo de envelhecimento ativo.
Carioca de nascimento, ela cresceu entre praias, corridas e mergulhos no mar. Ainda criança, aprendeu a nadar nas águas do Rio de Janeiro e logo incorporou o movimento como parte natural da vida.
“Desde pequena eu pratico atividade física”, resume.
Na juventude, a rotina já impressionava. Corria percursos superiores a 18 quilômetros pelas ruas cariocas e mantinha uma relação equilibrada com as três modalidades que mais tarde formariam sua identidade esportiva.
“Eu gosto das três. Não tiro nenhuma”, afirma ao falar da corrida, da natação e do ciclismo.
Ao longo da vida, porém, Carmencita construiu uma trajetória que extrapola o universo esportivo.
Antes de se tornar conhecida pelos desafios de resistência, atuou como piloto de avião, chegando a operar em regiões de garimpo na Amazônia. Em uma época em que a presença feminina na aviação era ainda mais rara, acumulou experiências que exigiam coragem, disciplina e capacidade de tomar decisões rápidas.
“Eu era piloto de garimpo”, conta com a objetividade que marca sua personalidade.
Essa mesma disciplina a acompanhou nas competições.
Em 1997 participou da tradicional Corrida de Reis, em Cuiabá, dividindo o percurso com um dos filhos. Décadas depois, continua encarando desafios esportivos e inspirando pessoas muito mais jovens.
Para ela, o objetivo nunca foi vencer adversários.
“Eu faço questão de sair e chegar”, resume.
A influência do esporte também atravessou gerações dentro da própria família. Mãe de quatro filhos, sempre incentivou brincadeiras ao ar livre, corridas, passeios em parques e atividades físicas.
Em vez de alertar constantemente sobre quedas e riscos, preferia estimular a descoberta.
“Eu ensinava eles desde pequenos. Corria com eles, levava para os parques e para brincar”, relembra.
Entre as inúmeras memórias acumuladas ao longo dos anos, uma ocupa lugar especial.
Carmencita foi uma das condutoras da Tocha Olímpica durante a passagem do símbolo pelo Brasil, experiência que considera um dos momentos mais marcantes de sua trajetória esportiva. Hoje, a tocha permanece exposta em Cuiabá como lembrança de uma história construída com perseverança e paixão pelo esporte.
Mesmo aos 76 anos, a rotina continua intensa.
No dia da gravação do podcast, por exemplo, ela já havia saído de casa antes das cinco da manhã para realizar seu treino de natação.
“Se não treinar, está ferrado. Se parar, dançou”, afirma, em uma frase que resume sua filosofia de vida.
A atleta acredita que a prática esportiva precisa começar na infância e lamenta a crescente substituição das atividades ao ar livre pelo excesso de telas.
Segundo ela, muitas famílias deixaram de incentivar o movimento e passaram a aceitar uma rotina excessivamente sedentária.
“O planeta tem mais água do que terra. Toda criança deveria aprender a nadar”, defende.
O discurso encontra respaldo na própria experiência.
Apesar da idade, Carmencita afirma não utilizar medicamentos para hipertensão ou diabetes, condição que atribui diretamente aos hábitos cultivados ao longo da vida.
Mais do que acumular quilômetros percorridos, ela acredita que o esporte oferece algo ainda mais valioso: independência.
“Tem que fazer alguma coisa. Senão a pessoa fica velha sentada no sofá e depois não consegue nem levantar sozinha”, resume.
Ao longo da entrevista, a sinceridade característica da triatleta arrancou risadas, revelou histórias curiosas e reforçou uma mensagem simples: envelhecer não significa parar.
Para Carmencita Hokumura, movimento não é apenas exercício físico. É uma forma de permanecer conectada à vida.
O podcast Giro Saúde é realizado pelo Instituto Brasil, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), por meio de emenda parlamentar do deputado estadual Júlio Campos, com apoio da assessoria Pedal do Cachorrão. O projeto reúne histórias de pessoas que encontraram no esporte uma ferramenta para construir saúde, autonomia e qualidade de vida


