Juan Vieira relata a experiência de produzir publicações independentes e levar a criação de poemas a estudantes da rede pública
Terminais de ônibus, faculdades e lojas se tornaram pontos de encontro entre o poeta Juan Vieira, de Várzea Grande, e seus leitores. Ao produzir e vender as próprias publicações, o escritor encontrou uma maneira de fazer circular seus poemas e acompanhar de perto a reação de quem os lê. A experiência também se conecta ao trabalho que desenvolve nas escolas, onde ensina estudantes a transformar uma folha de papel em uma publicação de poesia.
A trajetória foi tema de entrevista ao podcast Empreender em Foco, apresentado pela Comadre Nhenho, personagem interpretada por Dalila de Várzea Grande. Na conversa, o poeta abordou a produção independente, os desafios da venda direta e a importância de incentivar a leitura desde a infância.
Percorrer a cidade com livros nas mãos nem sempre significou encontrar portas abertas. Juan relata que houve locais onde foi impedido de oferecer suas obras. Em outros, conseguiu conversar com trabalhadores, apresentar os poemas e conquistar leitores.
Apesar do desgaste de caminhar e abordar pessoas, ele destaca uma vantagem dessa forma de circulação: o contato imediato com o público. Os comentários, as expressões e os pedidos por novas publicações se tornaram estímulos para continuar escrevendo.
“Tem gente que fica me cobrando: ‘Cadê meu livro?’”, contou.
Formado em Letras, Juan encontrou nas oficinas outra possibilidade de aproximar a poesia do cotidiano. O projeto “Há um poeta na minha escola” nasceu de uma lembrança do ensino médio, quando recebeu a visita de um poeta na unidade em que estudava.
O encontro mostrou ao então estudante que escrever poderia ser também uma profissão. Anos depois, ele passou a levar essa experiência a alunos da rede pública estadual.
Nas atividades, utiliza o fanzine, uma publicação artesanal que pode ser feita com uma folha A4 dobrada e preenchida com textos e ilustrações. A proposta permite que os estudantes participem da criação, da organização e da apresentação dos próprios poemas.
As oficinas podem acontecer na biblioteca, no pátio ou na sala de aula. Além de ensinar a montagem da publicação, Juan compartilha sua trajetória e procura mostrar que a produção artística pode acompanhar diferentes escolhas profissionais.
Para ele, estimular a escrita exige também formar leitores.
“Não tem poeta se não existir leitor para poesia”, afirmou.
Na entrevista, Juan recordou a publicação de “Poemas Absurdos, Amores Banais”, em 2019. Segundo o autor, a oportunidade surgiu após participar de um workshop e ter sua obra selecionada para publicação pela Humanos Editora.
A estreia, com lançamento e sessão de autógrafos, foi uma realização pessoal e abriu espaço para pensar nos próximos trabalhos. Foi nesse percurso que amadureceu a ideia de produzir seus próprios livros e comercializá-los diretamente.
Em 2025, publicou “Distopia Cuiabana”, pela editora Entrelinhas, com recursos da Lei Paulo Gustavo, conforme relatou. A obra incorpora fotografias da cidade e traz na capa uma imagem feita na ponte Sérgio Motta.
Ao falar sobre o trabalho com estudantes, Juandestaca a criatividade que encontra nas produções e a necessidade de manter o incentivo ao longo dos anos. Sua preocupação é que o interesse pela escrita seja abandonado antes de ganhar espaço na vida adulta.
O poeta também defende a aproximação entre artistas de Várzea Grande para compartilhar experiências, esclarecer dúvidas e apoiar a circulação dos trabalhos. Aos que não desejam escrever, deixa outro convite: ler e prestigiar a produção cultural.
“Seja um leitor, seja um consumidor, seja um apoiador.”
O podcast Empreender em Foco é realizado pelo Instituto Brasil, com apoio da Assembleia Legislativa de Mato Grosso e da Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel).



