Para Sandro Araújo, a bicicleta nunca foi apenas um equipamento esportivo. Ela se tornou ferramenta de trabalho, meio de transporte, espaço de amizade e, sobretudo, um estilo de vida.
Conhecido entre os ciclistas de Cuiabá e Várzea Grande como “Sandro Louco”, pela disposição para enfrentar desafios que poucos aceitariam encarar, ele foi o convidado de mais um episódio do podcast Giro Saúde, apresentado por Sérgio Urel, o Cachorrão. A conversa percorreu temas como mobilidade urbana, segurança no trânsito, superação pessoal e o papel do ciclismo na construção de uma vida mais saudável.
Natural da região de Barão de Melgaço, Sandro cresceu em um ambiente rural, cercado por rios, pescarias e trabalhos no campo. A bicicleta fazia parte da rotina desde cedo, mas ainda como instrumento de deslocamento.
Foi somente após se mudar para a região metropolitana de Cuiabá, em 2008, que o ciclismo começou a ocupar um espaço maior em sua vida. Trabalhando como mecânico de bicicletas, ele passou a conviver diariamente com o universo esportivo e descobriu uma paixão que nunca mais abandonaria.
Com o passar dos anos, vieram as competições, os desafios de longa distância e os pódios conquistados em diferentes cidades de Mato Grosso.
Um dos momentos mais marcantes de sua trajetória aconteceu durante uma prova de resistência realizada em Várzea Grande. Em pouco mais de 22 horas pedalando praticamente sem interrupções, Sandro percorreu mais de 600 quilômetros, parando apenas o necessário para hidratação e necessidades básicas. O desempenho lhe garantiu o título da competição e consolidou sua reputação como um dos ciclistas mais determinados da região.
Mas a rotina de atleta amador está longe de ser simples.
Sem patrocínios robustos e conciliando os treinos com o trabalho, Sandro organiza os horários de forma quase artesanal. Muitas vezes, acorda durante a madrugada para pedalar antes do expediente.
“Se eu quiser treinar, tenho que levantar duas ou três horas da manhã”, conta.
A dedicação impressiona até mesmo os companheiros de pedal.
Durante a entrevista, ele revelou que participa de um desafio de quilometragem que exige percursos diários de centenas de quilômetros. Mais do que disputar uma premiação simbólica, o objetivo é superar limites pessoais.
“A competição é fácil. O difícil é o treino”, resume.
Apesar da paixão pelo ciclismo, Sandro faz um alerta sobre a realidade enfrentada diariamente pelos ciclistas urbanos.
Segundo ele, pedalar em Cuiabá e Várzea Grande exige atenção constante e convivência com situações de risco provocadas pela falta de respeito de parte dos motoristas.
“Ninguém tem segurança nesse trânsito. Tem que andar olhando para trás o tempo todo”, afirma.
Para o atleta, a ampliação das ciclovias e o fortalecimento de políticas públicas voltadas à mobilidade ativa são fundamentais para reduzir acidentes e incentivar mais pessoas a adotarem a bicicleta como meio de transporte e lazer.
Ainda assim, ele reconhece a importância das iniciativas promovidas por grupos organizados, órgãos de trânsito e instituições que realizam pedais monitorados e ações educativas.
Nesses ambientes, afirma, a sensação de segurança é maior e o respeito dos motoristas tende a aumentar.
Mas talvez o aspecto mais importante do ciclismo para Sandro esteja longe das medalhas e dos números registrados nos aplicativos.
Quando questionado sobre o que mais marcou sua trajetória, a resposta veio sem hesitação.
“O que fica são as pessoas”, resume.
As amizades construídas nas estradas, as conversas após os treinos, a convivência com diferentes gerações de atletas e as histórias compartilhadas ao final de cada percurso formam, segundo ele, a verdadeira essência do esporte.
É nesse ambiente de companheirismo que nasceu sua paixão definitiva pela bicicleta.
Casado há 18 anos e com o apoio da família para seguir treinando, Sandro não faz planos de abandonar o esporte.
“Só paro se acontecer alguma coisa comigo. Pedalar é minha vida”, afirma.
Ao final da entrevista, deixou também um recado direcionado aos gestores públicos: investir em infraestrutura cicloviária é investir em saúde, mobilidade e qualidade de vida.
Enquanto essa realidade não chega plenamente às cidades, ele continua fazendo o que mais gosta: acordar antes do sol nascer, ajustar a bicicleta e seguir em frente, acumulando quilômetros, histórias e amizades pelo caminho.
O podcast Giro Saúde é realizado pelo Instituto Brasil, em parceria com a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer de Mato Grosso (Secel-MT), por meio de emenda parlamentar do deputado estadual Júlio Campos. A iniciativa reúne personagens que encontraram no esporte uma ferramenta de transformação social, saúde e bem-estar.
Confira:



